Estou envelhecendo, eu sei, mas paro e olho ao meu redor meio atônito e tenho que admitir que ao contrário de mim, a vida rejuvenesce. Olho para o céu límpido e percebo que está pintado de um azul mais vivo. Olho pro chão e vejo a grama mais verdejante do que no mês passado e que, além desse revigoramento, ela ainda está salpicada de flores que não estavam lá. Olho pro mar, esse então se renova a cada dia e tem a pachorra de não repetir uma onda sequer: todas são novas e todas desiguais. Agora, quando olho pra mim mesmo e vejo meu rosto no espelho, não me reconheço de imediato. Essas rugas não existiam: são estranhas para mim. A pele mais esticada --- sem plástica --- que até alguns anos passados compunha com firmeza uma cara bem definida, hoje ondula e pende. E os cabelos? Ah, os cabelos que rareiam e aparecem cada vez mais brancos são a minha diferença. Como não gosto deles, apesar de as mulheres acharem que são charmosos. Preferia meus cabelos castanhos sem charme mas com a cor da juventude. Se olhar mais pra baixo então... lá está ela, redonda, pontuda que se agiganta aos meus olhos incrédulos. Ela foi crescendo, crescendo tão secretamente que nem me dei conta que um dia seria uma barreira entre meus olhos e meu pinto. E ele? Ah, gravidade que não perdoa! É por isso que dizem que, com a idade, a única coisa que levanta em nós, é a gengiva.
Mas, puxando daqui, tirando de lá, eis que ele surge! Não mais com aquela cara de palhaço zombador de antigamente mas um senhor mais sério, mais cabisbaixo. Muuuuuuito menos arrogante. Tudo bem, mas é pra isso que a farmacologia está aí ao nosso dispor em cada esquina: para dar ânimo, para levantar o moral, até para ressuscitar os que se achavam fenecidos.
Não precisa olhar pra trás, entretanto, para saber que a coluna existe. O que já foi uma coluna de templos romanos, hoje diminui, se achata e achata os discos e a música que toca sai da nossa boca: ái, ái, ái... Que merda!!!
Entretanto a vida continua, linda, lépida e fagueira, recriada a cada amanhecer, indiferente aos nossos atropelos, às nossas queixas, aos nossos desgastes naturais. A única coisa que nos alenta, é que se olharmos para outros velhos e velhas (os "véio" como a molecada diz hoje entre eles mesmos --- acho que eles já prevêem o que vem por aí), percebemos que eles vão pelo mesmo caminho, como dizia meu sábio pai em sua filosofia simples, nada socrática, estão descendo a montanha também, tal qual a mim. A força é grande para não se deixar abater. A luta é contínua e renitente para não se deixar cair. Mas que o tempo passa, passa; esse é inexorável.
Agora, por outro lado, olhando pra dentro de mim mesmo, o que vislumbro? Vejo com precisão um céu onde o azul é mais azul, um mar bravio em desalinho, um gramado de futebol europeu, e flores, muitas flores pipocando daqui e dali. É bom olhar pra dentro da gente e sentir que toda a juventude permanece lá, intocável: a juventude é um estado de espírito; que toda a sua inquietação e seus questionamentos continuam agitando a mente; que nem tudo foi em vão.
Essa dicotomia entre corpo e alma de que o homem é composto é que faz da vida uma eterna fonte de prazer; um constante buscar sem nunca encontrar, uma deliciosa inquietação que não tem fim.
Envelhecer, meus velhos amigos e meus amigos velhos, nada mais é que se revirar do avesso para resgatar do fundo da alma, toda a pujança, o vigor, a esperança e a fé que fazem toda a diferença entre ser um jovem velho e um velho jovem.
Que Deus os mantenha eternamente jovens, pelo menos. por dentro.
Herbert
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