Custa-me crer que já passou o Natal, o Reveillon, que perdi minha amiga mais querida, que meu aniversário já está logo ali na esquina, que já acabou o Cabofolia e que mais adiante, em fevereiro, outra vez, é carnaval.
Custa-me crer que este governo que tanto rechaçava os outros é pior que os outros. Que as CPIs não deram em nada ou quase nada. Custa-me crer que há ainda milhões de brasileiros que não têm café, almoço e jantar para com isso garantir o sono tranqüilo do nosso chefe maior.
Custa-me crer que a dengue já está de volta fazendo mais vítimas e que outras doenças endêmicas aparecerão por falta de saneamento básico, por falta de investimentos que não aparecem por não fazerem votos nas próximas eleições.
Custa-me crer que a bandidagem armada corre solta, enfrenta, ataca, dá baixa na corporação dita do bem em São Paulo. Que pessoas são queimadas dentro de ônibus na cidade maravilhosa. Que o Rio de Janeiro continua lindo mas que ir lá continua sendo uma aventura que muitos preferem não se arriscar a viver ou morrer.
Custa-me crer que tiraram o Boris Casói da telinha porque o governo era retratado de forma nua e crua e que a imagem do presidente estava sendo achacada fazendo-o, possivelmente, perder votos na próxima eleição, como se uma opinião a mais, embora de peso, mudasse o raio-x desse imenso Brasil cujas estradas parecem mais as do circuito do rali Paris-Dakar.
Custa-me crer que Ariel Sharon se esvai e se vai sem que a paz tenha sido alcançada no Oriente Médio. Que homens-bomba se explodem no Iraque em nome de Alá, levando com eles dezenas e mais dezenas de inocentes que, por infelicidade, estavam lá naquele momento de culminância humana.
Custa-me crer que eu observo atonitamente tudo isso e sinto-me impotente perante tanta tragédia rolando aqui e pelo mundo afora. Que quase nada do que sonhamos pra depois da ditadura tenha sido conseguido. Há até os que sentem saudade daquela "página infeliz da nossa história" (Chico Buarque em Vai Passar) uma vez que todas as esperanças de se conseguir ordem aliada ao progresso já se esgotaram.
Custa-me crer que a nós, "ricos" mortais, só nos resta fazermos parte de ONGs verdadeiramente sérias para amenizar a dor dos menos favorecidos, servirmos como voluntários em algumas instituições filantrópicas, partilharmos mais o pouco que acumulamos com os que precisam mais que nós, conversarmos com aqueles que não têm acesso a notícias de fontes fidedígnas para alertá-los quanto aos nosso possíveis dirigentes e por último, mas não menos importante, fortalecermo-nos como seres humanos dando e recebendo apoio pessoal e personalizado, ou até mesmo através de e-mails, de blogs, de orkuts, de torpedos pelo celular, de cartas pelo correio (por que não?). Ainda bem que temos essa maravilha que é a Internet sem a qual o mundo estaria rodando em passos de cágado.
Custa-me crer que o milênio acabou que já estamos vivendo um outro milênio, que a era de aquário chegou como já anunciavam os hippies nos anos setenta, que o Lula-lá chegou e quer ficar, que mais um Natal angustiante já era, que o Reveillon foi excitante e renovamos as velhas promessas, que minha amiga pra sempre já está com Deus, que vou celebrar mais um verão --- primavera é pros "minos e minas" --- e que o Cabofolia vai trazer uma enxurrada de energia da moçada pra cidade e que a Globeleza já rebola na telinha anunciando mais um carnaval.
Custa-me crer que já vou fazer sessenta e dois anos --- cinqüenta a mais --- depois que, aos doze, fui acometido por uma paralisia avassaladora. Custa-me crer que sobrevivi, que vivi grandes amores, ah, os amores!, que quebrei a cara muitas vezes, que fiz muita merda, mas que também fiz muitos pratos saborosos, que degustei os melhores vinhos e as piores cachaças, que me ralei, me torci, me debati, mas me livrei das esporas e das amarras, que minha alma continua voando feito gaivota ao sabor do vento sem jamais pensar que uma arma pode estar apontada para mim.
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