
O PRESENTE
Muito do que se retém na memória é, invariavelmente, fruto de tudo que já se viveu, ou são esquemas que o intelecto monta no sentido de um dia vê-los realizados. Essa dicotomia entre o que já foi e o que ainda vai ser ocupa 90% da massa que temos para moldar nosso dia a dia. Os 10% restantes são preenchidos com variedades que fogem ao nosso controle. Perdermo-nos em lembranças que acarretam cargas pesadas de emoções vividas, transforma-nos em vermes que rastejam pela vida afora. Ocuparmo-nos de planos que um dia podem ou não virem a ser realizados, nos mantém um passo à frente do hoje, do agora, ou seja: atolamo-nos no lixo do passado ou nos debruçamos sobre um futuro absolutamente aleatório e dependente da mão do destino. Viver o aqui e agora que deveria ser simples como a,b,c, ainda prova ser o maior desafio. Ou mergulhamos no passado ou voamos para o futuro. Mantermo-nos no presente que é a coisa que temos como certa é que são elas. Nós, humanos, nos deixamos levar por um liame invisível para o passado como se temêssemos perder o que de fato e de direito nos pertence: a detenção de uma história que não depende de algo palpável, de algo concreto para existir, e nos mantermos senhores dos nossos feitos ou desfeitos. Não falo aqui de regressões de vida ou, como nos faz crer o espiritismo, de sucessivas encarnações. Falo simplesmente do nosso passado, tanto remoto quanto recente, e de todas as implicações a que a nossa mente, sobrecarregada de impressões, nos remete. No momento imediatamente seguinte, deixamo-nos levar a um futuro absolutamente abstrato, como se déssemos linha à uma pipa que, presa por essa linha invisível às nossas mãos, faz piruetas para a esquerda, para a direita, isso quando a falta de vento não a arremessa irremediavelmente ao chão. E concluímos: que desperdício! Que forma irrelevante de viver! Nossa falta de controle do nosso presente nos deixa balançar em uma corda bamba entre o que já foi e o que possivelmente será. E em meio a essa fuga para o passado e o tropeção no futuro, perdemos o tempo mais precioso que nos é dado como presente: o próprio presente. Retermo-nos sabiamente no presente, às vezes, requer de nós, um esforço sobre-humano. Usufruir este momento exato que dura, por vezes, o tempo limitado em que inspiramos é o nosso dever, mas que subestimamos como seres incompletos e raramente racionais que somos. Retermos esse exato, exíguo e precioso espaço de tempo para desempenharmos as nossas tarefas da melhor maneira --- quer sejam profissionais, esportivas, sexuais, sentimentais ou espirituais --- ainda é o maior desafio. Concentrarmo-nos nessa fração de segundo é o primeiro exercício a que nos devemos dedicar.
Viva o presente, o momento, o já; o passado e o futuro são grandes ladrões invisíveis de nossas energias e que devem ser mantidos, a todo custo, sob eterna vigília.
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