Tenho sonhado muito. E fico pensando, cá com meus botões, se sonhar não é transcender a vida também. O  sensibilíssimo  poeta Mário Quintana disse que "sonhar é acordar-se pra dentro". Concordo com ele. Também sempre pensei que sonhar está muito próximo do que é viver após a morte. Sempre pensei que se houver vida depois, ótimo. Se não houver, terá valido a pena viver apenas esta vida que é a garantida. Mas se houver um reinício, como a maioria, inclusive eu, supõe, acho que é exatamente como o que nos acontece nos sonhos: aquela coisa etérea, sem rumo, sem controle, confusa, difusa, obtusa, absurda, sobre a qual ninguém tem poder de interferir.

Às vezes acho também que, apesar de ter bastante atividades que preenchem minha vida como um todo, sempre estou reclamando da falta de tempo para fazer mais. Além disso, há uma premência, o tempo é sempre curto, a vida passa como um cometa, por mais que a gente se agarre em sua cauda, sempre há a urgência das coisas que deixamos para fazer amanhã, depois de amanhã, semana que vem, mês que vem, ano que vem, enfim, sempre para um depois que nunca chega. E aí estão incluídos os planos de começar a fazer dieta, de praticar exercícios, de arrumar os armários --- e se desfazer de tantas coisas que há um ano você não usa ---, de participar de um trabalho voluntário, de ler aquele livro de novo, arranjar uma namorada, comprar um carro melhor, mudar de casa, de cidade, de país, de vida etc., e é aí que a cabeça começa a embolar. Culpamo-nos por não sermos capazes de estarmos concomitantemente na casa do tio, do amigo, da amante; de pintar aquele quadro, de escrever aquele livro, de plantar aquela árvore, até se formar o ciclo. Fora todo o estatuto que a sociedade nos impões a seguir: não pode isso, não pode aquilo, isso não é politica, ambiental, religiosa e eticamente correto. E começamos a nos curvar sob o peso das demandas, das obrigações, das tarefas que nos são exigidas. É fogo, para não dizer outra coisa mais contundente.

Haja resiliência, haja verve, haja postura para encarar todo esse arsenal de armas apontadas para nós. Então fugimos. Fugimos pra outro lugar, baby, como sugere a música. E qual é esse lugar? Dentro de nós mesmos. E sonhamos mais e mais. Tem coisas que só no sonho, que, segundo Freud, é a realização disfarçada de um desejo reprimido, podemos dar vasão. Portanto, amigos, enquanto não dá para fazer o que queremos ou precisamos, o jeito é sonhar.

Bons sonhos pra todos vocês, que, como eu, não conseguem realizar tudo o que lhes vem à mente.

Grande abraço,

Herbert

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