Tenho sentido uma puta vontade de me apaixonar novamente. Aliás, estou sempre com vontade de me apaixonar. O problema é que se apaixonar dá um trabalho... Você tem que primeiro esvaziar o coração ainda cheio de outras paixões antigas que ainda rastejam em seu habitat natural. Aí, você puxa daqui, empurra de lá e vê que se desvencilhar delas é complicado. Imagine que ao longo de sua vida, você adquiriu móveis caros --- sonhos de consumo --- para mobiliar sua casa: comprou um sofá confortável de quatro assentos para melhor acomodar as visitas, uma cristaleira que só de entrar no antiquário você já estava pagando por ela, um piano meia cauda que por tanto tempo te serviu de inspiração. Aí você recebeu tantos convidados que no tal sofá se acachaparam, encheu a cristaleira de cristais, alguns até bacará, limoges, e do piano retirou sons melodiosos acompanhados por vozes que falavam de amor. Então eles passam a fazer parte integrante e definitiva da sua casa e de sua decoração. Cada peça guarda impressões que fazem parte de sua memória distante, pregressa. E você tenta se desfazer delas e elas estão lá, arraigadas, congeladas, já fazem parte de sua história, de seus ideais que foram tão importantes um dia.
Tais quais os móveis raros com seus objetos decorativos, as pessoas também ocupam seus lugares e deixam fortes impressões na gente, no coração da gente, na alma da gente. Desfazer-se desses amores, ainda que passados e das paixões, mesmo as doentias, é mais duro do que deixá-las lá quietas no seu canto. Agora me digam: coração de amante é como coração de mãe que sempre cabe mais um? Não. Definitivamente não. Agora, se o sofá rasgou-se pelo uso diário; se os vidros da cristaleira racharam ou mancharam; se no piano deu cupim, o jeito mesmo é arrancar do peito toda essa tralha com seus penduricalhos e quinquilharias para dar espaço para o novo amor. Amor embora abstrato, ocupa espaço físico na gente. Ele ocupa o peito, o coração e pior que tudo, ocupa a nossa mente. Com que descaramento ele rouba de nós o tempo que agora é ainda mais precioso porque começa a encurtar! Se for paixão então, aí ela não nos deixa nem margem para titubear, para se decidir, para aceitá-la. Ela vem de modo avassalador sem pedir licença, e com a maior cara de pau se instala em nós e aí, babau, a gente não é mais dono (a) da gente. Ela nos chega torcendo o pescoço, revirando a cabeça, fechando os olhinhos e quando você menos imagina, já é. Chega autoritária, irreverente, desrespeitosa e de repente você conclui que perdeu chave, cadeado e a corrente que protegiam o velho e combalido coração.
É, apaixonar-se dá uma trabalheira incrível. Você se relega a segundo plano, perde o controle mas o que é melhor: ela deita e rola literalmente na sua vida, porque se não deitar, não rola. Mas aqui pra nós, cair de paixão por alguém, ou mesmo por alguma atividade, ou ainda por alguma coisa é ou não é tudo de bom? Mesmo idiotisado, mesmo emburrecido por ela, ainda vale a pena dar-se mais uma chance de se ser feliz.
É. Eu acho que vou correr o risco mais uma vez. Eu vou é me apaixonar de vez
E você, como tem estado por esses dias, meses ou anos? Está apaixonado (a)? Quer se apaixonar? Pense nisso e me conte.
Um forte abraço e uma bela paixão pra você.
Herbert
|
|
||||
|
||||
![]() | ||||
|
||||