REVOLTA

Ontem desliguei a TV, muito antes do tempo normal que levo para adormecer.  Estava inquieto, angustiado, revoltado depois dos noticiários.  Caramba! Não dá mais para desligar, virar pro lado e dormir com um bombardeio de informações nefastas. Sigo, mais ou menos, um ritual de milhões de pessoas no mundo, que usam as telinhas ou telões de tv de plasma para se distrair, para se abstrair da realidade, para se sentir acompanhado. Tem gente que liga a TV automaticamente só para escutar vozes ao redor e espantar a solidão. Ainda não cheguei a esse ponto e, tomara, nunca chegue. Ainda tenho a capacidade e a sensibilidade de me estarrecer diante de tanta crueldade, tanta barbárie.  Os crimes se sucedem e apagam aqueles que já não ocupam espaço na mídia.  Quem fala mais do rapaz português assassinado a facadas em frente aos pais na praia de Copacabana que um dia já foi a “princesinha do mar”?  O crime nauseante do João Hélio já deu lugar aos três franceses assassinados pelo rapaz que era beneficiado por eles.  Ontem em um tiroteio a mocinha de treze anos é atingida nos rins e coluna correndo o risco de ficar paraplégica.  Os crimes acontecem com tamanha velocidade, que nem bem digerimos a contra gosto uma notícia, lá vem outra mais estonteante. Ficar paraplégico é mais um tracinho na escala ascendente das estatísticas. Quem se importa? Já está tão comum, tão vulgar, que a gente passa batido e atropela a notícia. Como dizem: a fila anda. Não aqui no Brasil. Aqui a fila corre, em breve estará voando. Tenho vergonha da minha pátria amada que povoa os jornais estrangeiros com letras ensangüentadas. Também tenho medo, como todos vocês, de que uma bala perdida me ache aleatoriamente. Também tenho deixado de ir a lugares que adoraria freqüentar porque a violência já chegou por aqui.  Antes era só o Rio. Depois vieram São Paulo, Vitória e Belo Horizonte. Hoje é também Recife, Belém, Fortaleza e todas as demais cidades que antigamente eram ilhas de conforto, descontração e tranqüilidade. Salvador bateu o recorde de violência este ano em seu carnaval, que era só alegria até há pouco.  Vivi, e graças a Deus que o fiz, os melhores anos do Rio de Janeiro quando chegava de reuniões, festas e festivais pela madrugada olhando o céu e contando estrelas. Como não ser saudosista? Como admitir tudo o que foi subtraído da minha pátria?

Como conviver com tamanha revolta no peito e fazer de conta que isso tudo é normal? Que é assim mesmo, que não tem jeito, que é melhor deixar pra lá. Como viver cada um por si e acreditar que Deus, em sua infinita bondade, protege uns e abandona outros?

            Enquanto isso os políticos adiam a votação da maioridade penal para quando houver quorum, para quando muitos mais já não tiverem voz para vociferar contra os maus tratos do nosso povo brasileiro, sofrido, humilhado, vilipendiado. Até quando, Senhor? Já não temo mais por mim, mas pelos filhos, sobrinhos e netos.  Como se não bastasse a ambição que devasta nossa esplêndida Amazônia, agora devastam nossa cuca já tão cheia de grilos.

            Que ainda haja tempo para inverter esse quadro que nos enoja e nos põe em risco cada vez que aspiramos por um Brasil decente, humano, solidário.

            Grande abraço,

Herbert

 

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